A Fé no Cristo Rei

A conclusão do Ano da Fé, celebrada na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, é ocasião para nos perguntarmos sobre nossa fé neste rei que se revelou simples, pobre e justo. Diferente dos poderosos do mundo, que oprimem o povo para manter sua posse de bens materiais, o Cristo, Rei do Universo, foi obediente e submisso ao Pai, anunciou o Reino da vida nova em todas as dimensões do bem viver e deu-nos a luz do sentido da vida.
A NATUREZA DA FÉ
imagem_texto_ja1311A fé é um dom de Deus. Ela vem embutida na Palavra. São Paulo nos ensina: “A fé vem pela pregação” (Rm 10,17). Com a Palavra ouvida ou lida vem a fé, que é o assentimento da vontade e da inteligência à própria Palavra. O mesmo Deus que fala já põe em nosso coração a resposta que quer de nós. Sendo dom de Deus, a fé é também tarefa nossa. Este primeiro assentimento precisa depois desenvolver-se na forma de estudo e de prática, de modo que o coração e a mente e todo o nosso ser possam ir se aprofundado na resposta a Deus. A fé vai se alargando, vai ajuntando-se com a esperança e a caridade e todas as virtudes até tornar-se um rio caudaloso, que é a força do Espírito Santo agindo na vida do fiel.
O Catecismo da Igreja Católica nos dá a seguinte definição de fé: “É a resposta do homem a Deus que se revela e a ele se doa, trazendo ao mesmo tempo uma luz superabundante ao homem em busca do sentido último de sua vida” (CIC 26). E mais adiante: “A fé é um ato pessoal: a resposta livre do homem à iniciativa de Deus que se revela” (CIC 166). Há uma dimensão relacional da fé: resposta do ser humano ao Deus revelado. Esta definição será mais bem explicitada, através do termo “obediência da fé”. Diz-se, então, que a fé: a) É a resposta adequada ao convite que Deus, pela revelação, faz aos seres humanos para entrarem em comunhão com ele (CIC 142); b) É a submissão completa da inteligência e da vontade do ser humano a Deus, o assentimento de todo o seu ser ao Deus revelador (CIC 143); c) É a submissão livre à palavra ouvida, à verdade garantida pela própria Verdade, que é Deus (CIC 144).
A Palavra de Deus, que pede nossa obediência e submissão, fez-se carne humana em Jesus Cristo. Na sua humanidade Jesus foi um homem de fé. Viveu fincado e firmado em Deus. A grande exigência que Deus-Pai lhe fez foi a permanência na fé, na obediência e na submissão. Jesus teve que aprender, entre muitos clamores e lágrimas, a ter fé em Deus, a ser o pioneiro da fé, a pôr toda confiança em Deus (Hb 5,7-9; 12,2). Na luz e na noite, na clareza e na obscuridade, ele permanece firme na fé em Deus. Nossa fé em Jesus, Deus feito homem, Salvador da humanidade, Rei do Universo, se fundamenta na fé de Jesus, homem de Deus e para Deus. Nossa obediência e submissão ao Cristo, Rei do Universo, se funda na sua obediência e submissão ao seu Deus e nosso Deus, seu Pai e nosso Pai (Jo 19,17).
A TOTALIDADE DA FÉ
O Catecismo afirma que a fé tem uma dimensão pessoal e uma dimensão doutrinal. A fé é adesão pessoal do ser humano a Deus e assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus (CIC 150). Ela é ao mesmo tempo fides qua e fides quae. Por sua dimensão subjetiva, existencial, relacional, ela é ato de entrega, abandono e confiança total em Deus (fides qua). Por sua dimensão objetiva e doutrinal, ela é assentimento à doutrina revelada por Deus que, sendo ele mesmo a Verdade, só pode dizer a verdade. Essas duas dimensões da fé são inseparáveis. Não se pode crer só a título pessoal, como uma homenagem que presto a Deus, sem aceitar seus ensinamentos encontrados na Escritura, na Tradição e no Magistério da Igreja. Não se pode crer aceitando pura e simplesmente um conjunto de verdades, sem uma relação pessoal de afeto e amizade com Deus.
Essas duas dimensões da fé apontam para a pluralidade de dimensões do Reino anunciado e vivido por Cristo, Rei do Universo. O Documento de Aparecida nos instrui que a fé deve abranger a totalidade de nossa existência, de modo que ela “se estabeleça mais profundamente no coração das pessoas e dos povos latino-americanos como acontecimento fundante e encontro vivificante com Cristo, manifestado como novidade de vida e de missão de todas as dimensões da existência pessoal e social” (DAp 13). “A vida nova de Jesus Cristo atinge o ser humano por inteiro e desenvolve em plenitude a existência humana em sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural. Para isso, faz falta entrar em um processo de mudança que transfigure os vários aspectos da própria vida. (…) A vida em Cristo inclui a alegria de comer juntos, o entusiasmo por progredir, a paixão por trabalhar e por aprender, a alegria de servir a quem necessite de nós, o contato com a natureza, o entusiasmo dos projetos comunitários, o prazer de uma sexualidade vivida segundo o Evangelho e todas as coisas com as quais o Pai nos presenteia como sinais de seu amor sincero” (DAp 356). Longe do consumismo hedonista e individualista, “a vitalidade que Cristo oferece nos convida a ampliar nossos horizontes e a reconhecer que abraçando a cruz cotidiana entramos nas dimensões mais profundas da existência” (DAp 357). No Reino de Cristo, Rei do Universo, “todas as autênticas transformações se forjam no coração das pessoas e se irradiam em todas as dimensões de sua existência e convivência” (DAp 538).
A IMPORTÂNCIA DA FÉ
É com a metáfora da luz que melhor se pode entender a importância da fé para o ser humano atual. No mundo de hoje, tão marcado por tantas crises e obscuridades na vida das pessoas e nas instituições sociais, vale a pena abrir-se para a luz da fé, que dá ao ser humano “o sentido último de sua vida” (CIC 26). Na sua primeira encíclica, o papa Francisco observa: “Urge recuperar o caráter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. (…) É precisamente desta luz da fé que quero falar, desejando que cresça a fim de iluminar o presente até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho, num tempo em que o homem vive particularmente carecido de luz” (LF 4).
O Cristo Rei, que se havia definido como “luz do mundo”, torna-se para nós o caminho para a “luz da vida” (Jo 8,12; 9,5). Colocado não em berços e tronos de ouro, mas nascido numa manjedoura, montado num jumento e morto numa cruz, ele revela-se como o caminho que nos tira das trevas e nos dá a luz da vida. A luz da fé é, portanto, o próprio Jesus, que se entrega e dá a vida por nós.
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